sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Na Central

Sento-me lá com certa frequência, com meus livros chatos e meu estojo azul, e ele fica me olhando, terno preto, gravata fina, cabelos penteados, seus olhos em mim, mão no queixo. Desconcentro-me facilmente. Abaixo. Continuo minha leitura entediante, princípios e normas esparsas, não absorvo nada desse tempo perdido. Penso. Ele continua me olhando. Como ele passava suas tardes por aqui? Será que escrevendo em um buraco sujo qualquer? Legítimo ele era com seu ópio e absinto no fundo da sala, ignorando os gordos barões falantes, que seus pais continuavam a pagar. Outras épocas. Época quando, na Liberdade, um casarão pegava fogo, fervido durante semanas a princípios ativos variados, na companhia de seus amigos de casaca preta, ainda garoava nessa cidade. Queria ser seu discípulo, talvez voltasse a reinar o sentido que busco. É o único que me agrada, tento sentir sua ânsia, lucidez, começo a entendê-lo melhor que outrora, estou na mesma situação dele. Quiçá ainda vague por aqui e torne a atormentar os estudantes com seu bafo. Acho que não. Há tantos lugares melhores que este para se passar a eternidade. Volto aos meus livros. Livros.

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