quinta-feira, 24 de julho de 2014

São Paulo Corações Anônimos

Estou tão triste que o meu quarto é o mais frio de São Paulo. Soneto em branco em preto no papel amarelado do tempo e com a caneta já seca de não ser usada. Meu Deus! Quão difícil é fazer um soneto. Enquanto isso eu pego um pouco de tinta emprestada e, na falta do papel e de quem puder ler para mim as palavras por mim já não tão escritas assim, lanço sinais de fumaça e de luz e de lágrimas pela janela que se abre aos meus pés. Do vento frio que tenta desesperadamente reanimar o coração que fibrila dentro das paredes. Mas as janelas estão fechadas e são de vidro. Quebrá-las pode, quem sabe, trazer papeis brancos e a caneta esquentar com o risco que a corta e, quem sabe, sair algum ponto de tinta. No papel. No quarto. Nas paredes.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sinais

"Alguém cantando longe daqui
Alguém cantando longe, longe
Alguém cantando muito
Alguém cantando bem
Alguém cantando é bom de se ouvir
Alguém cantando alguma canção
A voz de alguém nessa imensidão
A voz de alguém que canta
A voz de um certo alguém
Que canta como que pra ninguém
A voz de alguém quando vem do coração
De quem mantém toda a pureza
Da natureza
Onde não há pecado nem perdão."


sábado, 5 de julho de 2014

Recado

A Lua caolha sorri para mim
Um sorriso escrachado
Convidando-me a ir para lá
Conversar, prosear
Falsa a luz que me envia
Àquele refúgio não posso chegar
Sequer sou bem vindo
Não há lugar para fugir de si mesmo
O sorriso permanente desvanecerá
O recado foi dado.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Belo jardim

Aqui dentro só
Que tristeza é essa?
O jardim sofreu com a seca
No céu, o Sol

A flor perene se perdeu
Sabe-se lá
Um grão germinará para
Voltar ao que deveria ter sido

Assim espero
Só, aqui dentro.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Rastros do infinito

"O cometa passou
Marcou meu corpo
Está escrito
O cometa passou
Riscou o tempo e foi."

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Vento cinza

Ter uma sensação essencialmente física acalma e esquenta qualquer um que se entende como um ser humano. De que vale achar que somos os donos do tempo e da ação se isso não passa de uma grande ilusão? Estar submetido ao acaso que qualquer ser vivo está sujeito nos traz de volta à realidade, ao tempo em que a grande preocupação era o abrigo e o alimento. Não há nada que necessitamos mais que isso. Outra necessidade é mera criação, algo inventado que deve ser rejeitado. Não estar só, ser feliz, alimentar-se com outra coisa que não mantém o que se é materialmente: falsas ilusões. Sentir frio, fome, sono, cansaço: isso que lhe sustenta. Olhar pela janela e ver que tudo é uma mentira que, falsamente, auxilia-nos ou apenas nos distrai é uma verdade frustante. A herança maldita é ter consciência da existência.

sábado, 31 de maio de 2014

"Só na volta eu vi qual senda me levou
Qual me trouxe aqui pra encontrar você
Onde está meu lugar?
Desceu pelo rio
Da terra pro mar
Um fio de prata que me leva

(...)

Que na vinda eu quis pela primeira vez nunca mais partir
Esperar você
Meu lugar, onde está?
Desceu pelo rio
Da terra pro mar
Um fio de prata que me leva"