Não haveria melhor dia (quiçá uma quarta-feira) para escrever sobre o primeiro lugar que me chamou atenção em São Paulo: final da Paulista, Consolação à direita, vermelho, 2423. Lembro-me inclusive do dia, 10 de Fevereiro, o segundo dia do meu diário paulistano, um dia de dúvidas em demasiado, como é bom se sentir totalmente perdido. Como se a minha agulha magnética possuísse vários nortes e eu já percebia que escolhera a direção errada. Mas encontrei o refúgio com cheiro de pipoca. Sempre vazio ou com velhinhos e estudantes, passando a tarde inteira por lá, chegamos a sair e entrar 3 vezes.
Queria ter me lembrado da primeira sessão, mas isso já é muito para mim, não lembro nem como cheguei por lá, lembro que fui sozinho - assim como em todas as outras vezes. Talvez não me recordo porque já era uma rotina, poucas semanas eu não caminhei até pra lá do cemitério da Consolação.
E como a subida era um esforço, o centro me puxando, arranhando-me, não querendo o encontro com o meu abrigo, acho que eram os ciúmes. Ah, e como a descida era reconfortante, já com o Sol do outro lado do mundo, a temperatura amena, o corredor de vento formado, um mar de luzes vermelhas estressadas. E eu com as mãos nos bolsos, assobiando e me imaginando naquela onda produzida alguns instantes antes, ondas de sons, imagens e as luzes vermelhas paradas, que tanto me agradam.
Não sei se ali foi a fonte do meu entusiasmo para com os filmes, utilizando horas de meus dias com eles, esquecendo de tudo (até dos livros, como bom preguiçoso que sou), eram alemães, finlandeses, japoneses, argentinos, brasileiros, cubanos, iraquianos, franceses...Mas com certeza em muito contribuiu para a cinefilia (se bem que não sou o suficiente, adoraria o ser).
Agora há o risco de ser fechado, fico alfito. A perspectiva inicial era de que julho já não mais estaria produzindo tais efeitos. E eu, como um bom pessismista, sempre na expectativa de qual seria meu último filme assistido lá. Talvez não feche ainda. Talvez feche. Talvez reabra. E continuarei a correr às segundas e quartas até lá, todo alegre. Pausando o meu mundo, respirando com as frequências e aromas desejados. Um dia eu consigo.